Essência
Eu nem sempre sei como cheguei onde cheguei. Tento olhar minha vida de fora e traçar uma linha de ponto a ponto, para encontrar uma cronologia de eventos que me trouxeram até aqui.
Penso na infinitude do meu ser, na infinitude da vida e da existência cósmica, e em como é injusto que, perante isso, a vida em si seja finita. Não, não apenas finita: ela é imprevisivelmen
te finita.
Sendo assim, como posso eu, na minha razoável mortalidade, me sentir o ser mais infinito do mundo?
Fecho os meus olhos e consigo quase sair de mim, e vislumbrar a infinitude do universo, nos cosmos, dos astros, de Deus em si, e sinto uma saudade genuína de quem sou. Quem realmente sou, e não de quem estou.
Hoje somos Anas, Marias, Pedros, Paulos, Biancas... mas já fomos tantos... seremos tantos... e o que me toca é a verdadeira essência de quem sou quando não estou transvestida nesse avatar de carne e cabelos castanhos, repleto de tantas ansiedades e ânsias pela vida. Encaro meu reflexo jovial no espelho e enxergo, além de alguém jovem, alguém velho... Tão velho que, em minha mais pura essência, já vislumbrei guerras, conquistas, quedas de reis e impérios, revolução de povos e tantas histórias, histórias, histórias...
“Tenho em mim todos os sonhos do mundo”, li uma vez. Mas tenho em mim mais do que isso: tenho os sonhos, os medos, os anseios, as repulsas, as derrotas e as vitórias.
O que é a vida quando olhamos pela perspectiva da infinitude do nosso ser, das milhares de existências e nas inúmeras formas de se aproveitar essa passagem terrena?
Penso nos propósitos materiais e na contemplação ilimitada da carne, e não consigo deixar de viver um grande conflito entre o material e o imaterial – ou espiritual, se assim preferir. Esse é o maior conflito de minha finita vida como quem estou.
Pois digo que, mesmo que para alguns não pareça, meu maior anseio é ser, e saber quem sou.



